Novidades Atualizado em 14 de setembro de 2026 por Tatiane Mourão

O pároco de La Madeleine, Monsenhor Patrick Chauvet, não autorizou a lavagem da escadaria em 2026. A 25ª edição do evento afro-brasileiro foi transferida para uma área pública em frente à igreja, com Mariene de Castro como atração principal.

Quando li que a Lavagem da Madeleine não teria a escadaria da igreja este ano, senti aquele aperto de quem já teve um plano desmontado na véspera. Mas o que aconteceu em Paris é maior que uma negativa: é uma celebração que se recusa a sair de cena.

A 25ª edição da Lavagem da Madeleine, marcada para domingo (13), não obteve autorização da Igreja para lavar as escadarias do templo. O pároco de La Madeleine, Monsenhor Patrick Chauvet, informou que não permitiria o ritual em 2026, como ocorreu nos últimos anos. O evento foi transferido para uma área pública em frente à igreja, onde são esperadas 60 mil pessoas.

A mudança de local não esvaziou a festa. A cantora Mariene de Castro é a principal atração. O mestre de cerimônias, o multiartista Robertinho Chaves, um dos organizadores, comandará o evento ao lado dela, do alto de um trio elétrico. Também são esperados o cantor Jau, a artista franco-brasileira Gildaa e Lorena Pires, residente da Academia de Ópera Nacional de Paris, que interpretará a oração "Ave Maria".

A concentração será na Place de la République, de onde um cortejo sairá ao som de samba, maracatu, capoeira e de uma ala de baianas. A festa deve reunir uma centena de artistas e se estender pelas ruas de Paris após o ato religioso em frente à igreja.

A Lavagem é uma celebração ecumênica, que reúne referências do catolicismo e das religiões de matriz africana. Na última edição, em 2025, homenageou a cantora Preta Gil. Em anos anteriores, contou com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown e Olodum.

Em nota, a 25ª edição lamentou a decisão e informou que permanece aberta ao diálogo. A organização também convocou apoio: "Convocamos artistas, instituições culturais, líderes religiosos, movimentos sociais, brasileiros, franceses, imigrantes e todas as pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, a diversidade e direitos a apoiarem a 25ª edição da Lavagem e a se unirem a esta demonstração de resistência cultural", afirma a nota publicada no site do evento.

Procurada pela reportagem, a Arquidiocese de Paris não explicou a negativa. No site da instituição, há um chamado para os católicos demonstrarem "amizade" à comunidade judaica, que celebra nesta semana o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Yom Kippur). O espaço permanece aberto para a manifestação da igreja e do pároco Patrick Chauvet.

A Lavagem da Madeleine é inspirada na tradicional Lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador. Em Paris, é realizada há mais de duas décadas e, desde 2022, é reconhecida pelo Ministério da Cultura francês como patrimônio imaterial, parte do calendário cultural da cidade. A festa integra ainda a Rota dos Escravizados da Unesco, roteiro cultural internacional que conecta locais relacionados à história da escravidão e preserva a memória do maior crime contra a humanidade até agora.

A reportagem procurou os órgãos oficiais da França no Brasil para comentar a negativa da igreja, mas não obteve retorno por causa do fuso horário.

Se você sonha em ver essa festa de perto um dia, saiba que o cortejo pelas ruas de Paris segue aberto. Leve seu medo na mala, mas não deixe que ele dite o roteiro.

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