Maia presenteou o líder do parlamento de Israel com uma camisa do Botafogo e recebeu uma da seleção israelense (Foto: Divulgação/Embaixada Israel)

Uma conversa em que o líder do PMDB na Câmara dos Deputados, Baleia Rossi (SP), reclama com seus colegas da repercussão negativa da viagem de uma comitiva de parlamentares ao exterior foi captada pela Rádio CBN, que teve acesso ao diálogo entre deputados porque ligou para Rossi, que está na comitiva, e após gravar entrevista, o parlamentar não desligou o celular, que captou o áudio. Entre outros pontos, sem saber que estava sendo ouvido, ele afirma com um colega que a divulgação do pagamento de diárias aos deputados pela viagem os deixou “numa saia justa do cão”.

Na conversa, Rossi comenta com colegas ter sido procurado pela imprensa para falar do assunto. Na entrevista, ele explica que a viagem durará nove dias, mas que a Câmara pagará apenas cinco diárias. Ainda assim, o “passeio oficial ”tem sido duramente criticado por acontecer em um momento crítico da política brasileira e ter sido custeado pelos cofres públicos. Fazem parte da comitiva, além de Rossi e Maia, os deputados Marcos Montes (PSD-MG), José Rocha (PR-BA), Alexandre Baldy (PODE-GO), Benito Gama (PTB-BA), Cleber Verde (PRB-MA), Heráclito Fortes (PSB-PI), Orlando Silva (PC do B-SP) e Rubens Bueno (PPS-PR).

Os trajetos aéreos estão sendo realizados com um avião da FAB. O valor de uma passagem aérea com o mesmo percurso: São Paulo – Tel Aviv – Roma – São Paulo (sem incluir Portugal) teria o custo de R$ 28.500 em classe executiva, de acordo com o site da companhia Air France. Além do custo aéreo da FAB, o dinheiro público envolvido na viagem inclui diárias para bancar hospedagem, transporte local e alimentação, no valor de US$ 428 (R$ 1.408) para cada deputado.

Devido ao seu cargo, Rodrigo Maia teria direito a um valor maior: US$ 550 (R$ 1.808), mas na semana passada, sua assessoria afirmou que ele decidiu abrir mão do recebimento das suas diárias. Foi exatamente essa pergunta, feita pela repórter da CBN a Baleia Rossi, que gerou o comentário sobre a “saia justa do cão”. Ao todo, cada deputado receberá US$ 2.750 (R$ 8.921). Ou seja, só as diárias, somadas, custarão quase R$ 90 mil aos cofres públicos, ou seja, ao bolso do contribuinte.

“Agora, de nove dias nós só estamos recebendo cinco diárias, não é? Eu estou falando que eu estou abrindo mão de quatro diárias. Abrir mão para economizar, para ajudar o país. Falei para uma jornalista: Oh filha, eu estou incomunicável. Depois no final da viagem eu vejo o que eu faço”, comentou Baleia Rossi com colegas, no áudio que vazou. “Agora, o Rodrigo tem que falar o seguinte: não é que ele está devolvendo (as diárias). Ele não vai receber. Porque esse negócio de devolver… aí coloca a gente numa saia justa do cão”, repetiu Rossi. Maia informou que abrirá mão das diárias porque sua hospedagem será bancada pelo países anfitriões.

Roteiro de atrapalhos

Nesta quinta-feira (2), o único compromisso dos parlamentares é uma cerimônia no “monumento votivo militar brasileiro”, em Pistóia, norte da Itália, feito em substituição ao cemitério onde jaziam os soldados brasileiros que morreram em combate na Segunda Guerra Mundial. De lá, a comitiva liderada por Maia segue para Lisboa, onde há encontro com diplomatas brasileiros e uma palestra de encerramento do 4º Seminário Internacional de Direito do Trabalho. O sábado é reservado apenas para “agenda privada” em Lisboa.

A agenda da comitiva em Israel foi encerrada nesta quarta-feira (1º) com um passeio turístico pela Cidade Velha de Jerusalém e visita a Belém, na Cisjordânia, onde os deputados foram recebidos por um representante do Conselho Legislativo da Palestina em vez do prefeito da cidade, Anton Salman, que cancelou o encontro pré-agendado.

Aliás, a passagem dos parlamentares brasileiros por Israel foi marcada por reuniões oficiais breves a portas fechadas, várias mudanças de agenda e pouco contato com a imprensa, permitido parcialmente nos dois primeiros dias (em Israel), mas proibida nos dois dias seguintes, nas visitas a Ramalá (dia 31) e a Belém (1º). O horário de partida para a Itália também foi alterado de última hora.

As fotos oficiais da visita à Cisjordânia foram produzidas pelo Escritório de Representação do Brasil junto ao Estado da Palestina e liberadas para a imprensa, mas barradas por Rodrigo Maia. Antes de se dirigirem ao Parlamento israelense (Knesset), os congressistas participaram de uma visita guiada pelo Museu do Holocausto. A reunião com o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que havia sido divulgada pela assessoria de Maia, acabou não sendo confirmada.

As outras duas reuniões previstas, com o presidente do Parlamento, Yuli Edelstein, e o ministro de Segurança Pública, Gilad Erdan, duraram cerca de 20 minutos e se limitaram a uma conversa formal e troca de cortesias. A comitiva em seguida reuniu-se, mais uma vez a portas fechadas, com representantes de quatro empresas israelenses de segurança pública.

Na terça-feira (31), nova mudança de agenda: em lugar de uma visita a Belém, na Cisjordânia, o grupo se deslocou para Ramalá. Ali, colocaram uma coroa de flores sobre o túmulo de Yasser Arafat e depois se reuniram por cerca de 20 minutos com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, o primeiro-ministro palestino, Rami Hamdallah, e outros membros do Conselho Legislativo da ANP. A viagem a Belém aconteceu nesta quarta (1º) pela manhã. Na agenda, um único evento: a visita à Igreja da Natividade, que passa por restaurações e precisa de apoio financeiro internacional para a finalização das obras.

*Com agências