Em novo depoimento, Funaro revela mais detalhes sobre propina que teria sido paga a Temer em 2010 (Foto: Reprodução)

O corretor Lúcio Bolonha Funaro afirmou nesta terça-feira (31) ao juiz Vallisnney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal, em Brasília, que o presidente Michel Temer (PMDB), o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Moreira Franco, e o ex-deputado Eduardo Cunha (ambos também peemedebistas) teriam recebido parte da propina paga por uma empresa de energia do grupo Bertin, que atua no setor de proteína animal. O interrogatório de Funaro é no âmbito a ação penal derivada da operação Sépsis, que investiga a atuação de integrantes do grupo político do PMDB da Câmara na vice-presidência de Fundos e Loteria da Caixa. Além do corretor e de Cunha são réus no processo o ex-deputado Henrique Eduardo Alves, o ex-vice-presidente da Caixa Fabio Cleto e o ex-sócio de Cleto, Alexandre Margotto.

Segundo Funaro, Temer teria recebido de forma indireta, por meio de uma doação oficial ao PMDB na campanha de 2010. Na disputa, o peemedebista era o candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff (PT). “Se não me engano, Eduardo Cunha ficou com R$ 1 milhão; R$ 2 milhões foram destinados ao presidente Michel Temer”, afirmou Funaro. Sobre Moreira Franco, o delator afirmou ter certeza que ele recebeu parte desse dinheiro proveniente do Bertin. Ainda de acordo com o delator, em 2010, Moreira Franco teria deixado o cargo que ocupava na Caixa para exercer a função de “tesoureiro de propina” para Temer.

Além dos repasses para Temer, Funaro citou vários pagamentos efetuados ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. Segundo o delator, desde 2003, quando começou sua relação com Cunha, ele comprou carros e pagou a compra de um apartamento para o ex-deputado. O imóvel teria sido adquirido do ex-jogador do Corinthians, Vampeta. “Paguei com cheque de uma empresa minha”, afirmou..

Funaro já havia mencionado pagamento de propina do grupo Bertin em seu acordo de delação com a PGR, mas, à época, ele não havia detalhado o pagamento a Temer. Na delação, o doleiro tinha explicado aos investigadores que empresas pagavam propina em troca de facilidades na liberação dos recursos do FI-FGTS.

Resposta

Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República rebateu as novas acusações de Funaro, afirmando que Temer “contesta de forma categórica qualquer envolvimento de seu nome em negócios escusos ainda mais partindo de um delator que já mentiu outras vezes à Justiça”.  A Presidência também comentou as doações do PMDB recebidas naquele ano, e afirmou que as contribuições não têm relação com a financiamentos do FI FGTS.

“Em 2010, o PMDB recebeu 1,5 milhão de reais em três parcelas de 500 mil reais como doação oficial à campanha, declarados na prestação de contas do Diretório Nacional do partido entregue ao TSE. Os valores não têm relação com financiamento do FI FGTS”, diz a nota. Já o ministro Moreira Franco respondeu apenas que “uma pessoa que vive da delinquência necessariamente vive da mentira”.

Joesley Batista

Ao longo do depoimento desta terça, Funaro respondeu perguntas feitas pela defesa de Cunha. Parte do questionário tratou da relação do doleiro com o empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, que está preso atualmente após um controverso acordo de delação com a PGR. Segundo Funaro, Joesley é um “ladrão” e “roubou” Cunha, o ex-ministro Geddel Vieira Lima e o próprio Funaro ao não pagar a comissão acertada na compra da empresa Alpargatas, que fabrica as sandálias Havaianas, pela J&F. “O que ele roubou de mim, do deputado Eduardo cunha e do Geddel Vieira Lima, só de Alpargatas, seriam R$ 81 milhões”, afirmou.

Conforme o doleiro, Joesley deveria ter pago 3% em relação aos R$ 2,7 bilhões da operação, realizada em 2015. Funaro contestou os valores de uma planilha entregue por Joesley, que registra a relação financeira entre os dois. “Eu tenho a receber dele R$ 41 milhões mais ou menos de dinheiro lícito [de Joesley]. Se for calcular o ilícito junto, vai dar 120 poucos milhões de reais, porque ele deu um tombo nessa operação da Alpargatas em mim, no deputado Eduardo Cunha e no Geddel Vieira Lima”, ressaltou Funaro, afirmando que a planilha tem erros, já que há registro de cobrança de juros. “Quem paga juro e recebe juro é banco, eu nunca vi pagar juro e receber juro de dinheiro ilegal”, ironizou.

Questionado pelo advogado de Cunha sobre as condições do acordo de delação com a PGR, Funaro disse que delatou de “livre e espontânea vontade” e que foi tratado de forma “severa”. “Eu resolvi que eu prefiro não ter nada e ter paz, do que ter tudo e não ter paz”, disse. Funaro ainda afirmou, ao final do depoimento, que está disposto a fazer um teste de polígrafo diante de Cunha, que na semana passada rebateu as afirmações feitas pelo doleiro. “Eu vou desmentir tudo. É uma repetição do que já está na delação e, no meu interrogatório, eu vou fazer a minha defesa e mostrar as mentiras que estão sendo faladas”, disse Cunha na última semana, depois de uma audiência para o interrogatório dos réus no processo em questão.

*Com agências