Após a derrota da segunda denúncia contra Temer, Rodrigo Maia tem as rédeas do país nas mãos (Foto: Jorge William/Arquivo)

“Toda gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabe de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas.” Assim como o lendário personagem de Érico Veríssimo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chegou ao centro do cenário político de repente e causou desconfiança. Rapidamente, conquistou espaço e aliados e, agora, no futuro pós-segunda denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB), tem as rédeas do país nas mãos.

Na Câmara desde 1999, o filho do ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia aproveitou, em 2016, o cavalo selado que passou ao seu lado após a derrocada do ex-deputado e presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Com 285 votos, foi eleito à presidência da Câmara para cumprir um mandato-tampão até 1º de fevereiro de 2017 e, em uma manobra apoiada pelo governo, se reelegeu ao posto mais alto da Casa. “Mais por consequência do que por estratégia”, na visão de aliados, se prepara agora para chegar ao Palácio do Planalto nas eleições de 2018.

No processo de análise da primeira denúncia, quando a Procuradoria-Geral da República acusou Temer de corrupção passiva, Maia se manteve afastado do processo de negociação para não sair com imagem de traidor, já que é o principal beneficiado caso Temer saia do cargo. Agora, na segunda denúncia, depois de ser chamado por alguns de “covarde”, o carioca preferiu ser mais incisivo: ajudava o Planalto, mas depois tocaria uma agenda própria no Congresso. “O Temer não tem mais governabilidade e o único caminho é entregar as decisões mais relevantes, especialmente em relação às questões econômicas ao Congresso. Ele fica mais quieto e deixa o Rodrigo Maia e o Eunício trabalharem”, comenta um deputado da base aliada defensor desse “parlamentarismo branco”.

E essa é a promessa de Maia. Ele prepara uma agenda de votações focada em projetos com mais apelo popular, principalmente ligados à saúde e à segurança pública, e pretende jogar fora qualquer proposta de reforma que tenha a digital de Michel Temer. “A ideia é trabalharmos em uma reforma da Previdência, por exemplo, que una o Congresso e se adéque ao ambiente possível para ser aprovada em um ano pré-eleitoral”, explica um correligionário do presidente da Casa.

Longe dos holofotes

Interlocutores no Palácio do Planalto garantem que Temer não está incomodado com a perda de protagonismo para Maia, até porque, com a aprovação de somente 3% da população, segundo pesquisas, o chefe do Executivo estaria “até gostando” de sair dos holofotes para cuidar da própria imagem. “O presidente não tem pretensões de se eleger em 2018, mas quer deixar um legado significativo. Então, se o Congresso conseguir tocar as reformas, é bom para ele também”, comenta um interlocutor.

Na visão do líder do PMDB na Câmara, o crescimento de Maia está longe de ser um problema. “Desde o começo, o presidente Michel governa com esta proposta de parceria com o Congresso. Quando ele fala em ‘semipresidencialismo’, é exatamente o que ele defende”, afirma Baleia Rossi (SP).

Alguns peemedebistas apostam, inclusive, em Maia para a sucessão de Temer no poder, já que os principais medalhões da sigla estão sendo investigados em denúncias de corrupção. Apesar do desejo do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de ser o candidato do Planalto, o partido não acredita na capacidade de angariar votos do titular da Fazenda. Já o DEM dispensa o apoio. “A baixa popularidade de Temer vai colar em qualquer um. A tendência do Rodrigo agora é cada vez mais de afastamento do governo”, comenta um aliado.

Protagonismo

Agora, o partido trabalha para ampliar a divulgação desse protagonismo de Rodrigo Maia, já que, na visão de grande parte da sociedade atual, os políticos estão desacreditados e no mesmo balaio. Citado nas planilhas de propina da Odebrecht como “Botafogo”, acusado de ter recebido R$ 1 milhão em caixa dois, ao todo, nas campanhas de 2008, 2010 e 2012, o carioca só precisa tomar cuidado com a sede de poder. A paixão pelas armas e a ambição fizeram com que o xará descrito por Érico Veríssimo ignorasse conselhos de aliados e fosse à guerra, onde sucumbiu com uma bala no peito. “Rei morto, rei posto.”

*Do Correio Braziliense/DIARIO