Nova Arena

Grupo de jovens de tendência conservadora pediu ao TSE novo registro da ARENA, sigla que abrigou os aliados do regime militar durante o bipartidarismo (Foto: Reprodução)

por Sérgio Montenegro

Poucas filas andam tão concorridas quanto a que se formou nos corredores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para brigar pelo registro de novos partidos. Não bastassem os atuais 35 em “funcionamento”, há mais de 50 pedidos em gestação. O mais curioso, porém, é que a ampla maioria desses “embriões partidários” tem tendências que correm do centro à extrema direita, numa clara tentativa de surfar numa onda que já esmorece na Europa, onde levantou-se há alguns anos, movida pelo swell da crise econômica mundial.

Um rápido exame do atual cenário europeu, feito pelo cientista político Thales Castro – professor de Relações Institucionais da Unicap e da Faculdade Damas – mostra o quão atrasados estão esses aspirantes ao conservadorismo. Ele reconhece o poderio dos chamados “partidos jovens” no Velho Continente, mas chama a atenção para os últimos insucessos das legendas mais à direita.

Além do caso mais evidente, quando, ancorado em um partido de centro-esquerda criado em abril de 2016 – o “En Marche!” – o ex-ministro Emmanuel Macron derrotou a extrema direita tradicional francesa, representada por Marine Le Pen, filiada ao Front National e herdeira das ideias do seu pai, Jean-Marie Le Pen, igualmente malsucedido na sua tentativa de presidir o país. “Tanto na Holanda como na Áustria, a extrema direita até conseguiu chegar ao segundo turno, mas em ambos os países foi derrotada pelo centro ou centro-esquerda”, diz Castro, antevendo para breve outro resultado semelhante, dessa vez na Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel, que disputa a reeleição contra candidatos mais à direita, deve se manter no cargo.

Macron Le Pen

Na França, o estreante Macron derrotou Le Pen, nome da extrema direita (Foto: reprodução)

O professor cita ainda o exemplo espanhol, onde tradicionais adversários – o PP, de direita, e o PSOE, esquerdista – se viram obrigados a buscar alianças com os jovens, porém fortes, PODEMOS, de esquerda, e CIUDADANOS, centro-esquerdista. A manutenção do poder na direita, segundo Thales Castro, até o momento parece se consolidar apenas na Dinamarca, com chances reais de vitória no próximo pleito. “A onda conservadora na Europa diminuiu, mas mantém alguma efervescência. Ainda que pela oposição, há um forte discurso neoconservador, nacionalista e da direita, insuflado pelo Brexit (rompimento da Inglaterra com a União Europeia), e movido pela insatisfação popular com políticos esquerdistas que descumpriram promessas de campanha”, afirma Castro.

Esse é um bom mote para trazer o assunto de volta ao Brasil onde, de acordo com o estudioso, as novas turbulências no cenário político fortalecem a onda conservadora, todavia, com perspectivas distintas da Europa. “Lá, sob a bandeira do conservadorismo, defende-se o combate à corrupção. Já aqui, é difícil definir esquerda e direita, porque a corrupção tornou-se ambidestra”, ironiza.

De acordo com Thales Castro, a grande culpada é a nossa legislação eleitoral, frouxa e ultrapassada, que permite um “hiperpluripartidarismo”, gerando partidos de aluguel ou siglas criadas exclusivamente para que seus dirigentes se beneficiem do dinheiro do Fundo Partidário, garantido por lei às siglas registradas. “Esse exagero de partidos atrapalha o eleitor médio, o impede de assimilar qualquer proposta”, diz.

Thales Castro

Castro: argumento dos conservadores europeus não vale no Brasil, onde a corrupção é “ambidestra” (Foto:Reprodução)

É nessa onda que vêm surfando os embriões de partidos conservadores. Alguns tentam a refundação, como a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – que deu sustentação ao regime militar instalado em 1964 – e o PRONA, que dava suporte ao ufanismo ultraconservador do Dr. Enéas Carneiro (aquele do bordão de 10 segundos). Entre os novos pedidos de registro no TSE estão ainda o Partido Militar Brasileiro, Partido Conservador, Partido da Segurança Pública, Patriotas, União para a Defesa Nacional, sem falar no Partido dos Servidores Públicos e nos vários que incluem a palavra “cristão” na sigla. Há até um pedido de reconhecimento do Partido Nacional Corintiano.

 “No Brasil, sempre fomos tardios, sempre consumimos os estrangeirismos sem questionar. É uma espécie de fetichismo que praticamos, como se fosse solução para os nossos próprios problemas”, analisa Thales Castro, concluindo com uma advertência: dessa nova onda conservadora podem florescer várias matizes e matrizes, a exemplo de partidos defensores de velhas teses, como a da “tradição, família e propriedade”. Ou legendas exclusivamente militaristas, além das neoconservadoras, ligadas ao empresariado, e as neoliberais, de inspirações ruralistas.